A edição de março de 2016 traz uma entrevista muito interessante com a fotógrafa, videorrepórter, bike repórter e cicloativista Renata Falzoni. À seção “Filosifia de Boteco”, e entre um petisco e outro, falou sobre a paixão por bicicleta, ciclovias, habilitação, política e também sobre a sua opção sexual.

O bate papo começa com Renata falando porque deixou de usar o carro. “Eu chegava em seis minutos e meio no Mackenzie e achava um horror voltar em 45 minutos. Achava impossível perder tanto tempo no carro. Depois fui morar na Vila Madalena e comecei a ir de bicicleta pro Mackenzie porque tinha outro agravante: não tinha onde estacionar. Você chegava cedo pra ter onde parar… comecei a questionar essa escravidão”, comentou.

Falando de política, Renata não se esconde e fala abertamente. “Fui candidata a vereadora quando o Serra foi candidato a prefeito contra o Pitta, em 1996. Participei de todas as reuniões de discussão do plano de governo (do Serra). Quando o plano saiu, a palavra “bicicleta” não entrou. Era “legal, bacana, vem aí, você traz voto…”, mas era fake. Quando o negócio começou a ser levado a sério, incomodou. Hoje há uma partidarização do tema. Se a pessoa estiver argumentando contra é porque ela é contra o PT, não tem como você demovê-la. Até tem, mas você tem que estar bem de espírito. E nem sempre eu tô”.

Ainda sobre política, ela continuou respondendo. “A política é assim: você tem que se relacionar. E, se você não usa camisinha, você se contamina. Eu não sinto tesão de dar pra um cara que não fala a minha língua, entendeu? E, quanto mais velha eu fico, menos saco eu tenho pra isso. Antes de falar mal de um político, eu fico vendo o enorme sapo que o cara tem que engolir pra negociar dentro de um ambiente cada vez mais inegociável. É chantagem dali e chantagem daqui. Ao ceder pra uma chantagem, toda uma carreira que você criou vai por água abaixo. Espero que pessoas mais jovens estejam dispostas, porque eu não estou. Na campanha que fiz, ninguém estava me levando a sério. Aí fizeram uma pesquisa e meu nome estava entre os 100 mais votados. Aí o Serra veio falar comigo e me deu mais tempo na campanha. Me lembro de estar em um desses comitês e veio um vereador e disse, dando tapinhas no meu rosto: “Renata, se você for eleita, vai ter que se enquadrar, viu?”. Desse jeito! No cantinho! Eu era, falando bom português, cabaça de tudo.”, finalizou.

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Falando de política, ela não poderia deixar de citar o PT, partido que inclusive já fez parte e ela foi direta na resposta. “PT nem fodendo. Eu explico. Em 1981 eu estava lá, participei da fundação do PT. Eu me doava, mesmo. Aí, em 1985, demos margem para a eleição do Jânio em SP. Porque se dividiu a esquerda. A disputa era entre Suplicy, FHC e o Jânio. Eu fiquei colérica, porque eu dizia que a gente tinha de apoiar o Fernando Henrique. Então, já tava mal. Nos embates, eu ouvia: “Renata sapatão. O mundo morre de fome e você só fala em bicicleta. Nós queremos luxo pra todos, carro pra todos”. Ouvi isso numa reunião da galera. Primeiro, podia ser gay – por acaso não sou –, mas você vê como é que é rótulo. Falei: “Vocês são rotuladores, não têm nem ideia do que é ter carro pra todo mundo, pedalo mesmo e vão tomar no cu”. Saí do PT por falta de agenda verde e exagero de rótulos. Infelizmente essa turma da esquerda é mais rotuladora do que a do centro-direita. Nunca mais votei no PT”.

Aproveitando a política, a Sexy abordou o assunto ciclovia, e Renata falou a respeito. “A mobilidade de bicicleta está inserida na Secretaria do Transporte e isso é uma diferença. Mas o pedestre e o ciclista ainda vão aonde dá e, quando tem algum conflito, não vão. Aplaudo tudo o que foi feito, não poderia ser feito melhor. Não adianta dizer que houve falta de planejamento. Isso tá mascarando uma realidade: culturalmente, a cidade não poderia receber o bem planejado, o certo e o transformador. Ia todo mundo ser demitido e enforcado em praça pública.”.

Quando a pergunta foi sobre como lida com o rótulo de ser gay, já que ela é heterossexual, foi direta. “Eu não lido. Eu cago e ando. O que é engraçado é que todos os meus amigos homens mais próximos já tiveram cenas de ter que defender minha honra (risos). Alheio à minha vontade! Não posso descrever porque são cenas constrangedoras. Um amigo meu disse: “Saí em sua defesa porque uns caras falaram que conhecem sua namorada”. Aí, pela descrição, eu falei: “Claro, é minha filha (risos)!”, comentou.

Foto: Alexia Santi / Divulgação
Foto: Alexia Santi / Divulgação