Mentir em CV é algo que acontece em todo o mundo, mas no Brasil essa prática parece não causar constrangimento

(*)  Dr. Flávio Ordones

 

Desejo de impressionar?  Um caminho para dar up grade em salário e acelerar promoções? O fato é que informações inverídicas em currículo não é algo tão raro quanto possa parecer. Quando vem a público a ocorrência com alguém de projeção, ficamos chocados. Mas esse é um fantasma que nos acompanha todos os dias, nos corredores de inúmeras empresas, universidades, hospitais e demais instituições.

A DNA Outplacement fez uma ampla pesquisa em 2018, avaliando seis mil currículos cadastrados em 500 empresas sediadas no Brasil, Chile, Peru e Colômbia. O resultado foi que 75% dos currículos enviadas a essas empresas tinham informações distorcidas.

No Brasil, acompanhamos pela mídia alguns casos emblemáticos.  O da professora Joana D’arc Félix Sousa, que por pouco teve sua história retratada em filme como exemplo de superação até descobrir-se que seu diploma em Harvardnunca existiu. Ela de fato cursou graduação mestrado e doutorado em química na Unicamp. Mas o título de pós-doutorado em Harvard, que era informado na plataforma Lattes, não era verdade.

Outros também abrilhantaram de forma duvidosa seus respectivos diplomas,  como o atual governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel. E mais recentemente, o professor Carlos Alberto Decotelli, indicado mas que não chegou a tomar posse no Ministério da Educação. Demitiu-se antes mesmo de ser empossado, tamanho constrangimento os equívocos de seu currículo causou.

No anonimato também há absurdos

Parece mesmo que a prática é mais comum do que se imagina e, acredite se quiser, é ainda mais comum no meio médico.Basta uma pesquisa cuidadosa  em sites e mais recentemente  perfis de Instagram de muitos médicos para acharmos desde especialidades que não são reconhecidas, pós-graduações que tentam “substituir” programas de residência médica e, mais comumente, estágios internacionais (os chamados observerships, research ou clinical fellowships).Mas você, paciente saberia reconhecer a diferença e a “veracidade” do que o seu médico publica na internet?

Aqui seguem algumas informações que podem ajudar a não cair numa cilada ou não se super valorizar um profissional que pode sim ter competência, mas não está sendo honesto na relação com o mercado e na formação que divulga ter.

Estágios observacionais de 1, 2 ou até 3 meses  –  esses são chamados OBSERVERSHIPS. Nele, o médico acompanha o serviço como um “observador”. Não lhe é permitido atender, prescrever e muito menos operar. No entanto, o profissional terá uma boa noção das condutas e do modo como os casos são tratados em universidade e hospitais no Exterior . Isso é um diferencial, mas não lhe confere, por exemplo, um treinamento cirúrgico prático (usando a cirurgia e urologia, minha área , como exemplo). No geral, para integrar esses cursos não se requer um processo seletivo, não há nem mesmo a exigência de qualificação de língua estrangeira.

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FELLOWSHIPS – Estes sim são os campeões de confusão. Muitos médicos fazem “upgrade” de seus observerships para fellowships na hora de publicarem páginas pessoais na internet. Mas o que são os fellowships? São estágios práticos, no geral mais prolongados, com duração média de um a dois anos. Nele, o médico participa de um processo seletivo, proficiência em língua estrangeira é necessária e os cursos podem ser de dois tipos:

1) Research  Fellowship – Unicamente (que aqui reforço unicamente) voltado à pesquisa, seja de laboratório ou com base de dados, prontuários e outros. Neles, o researchfellow tem pouca ou nenhuma experiência como, por exemplo, operar pacientes ou participar ativamente da prática clínica. O foco é pesquisa, seja em laboratório ou com levantamento de dados.

2) ClinicalFellowship – Nesse “treinamento” o médico vivencia a prática clínica ( ou cirúrgica) no dia a dia do hospital. Alguns países exigem, além de proficiência em línguas , a validação do diploma ou pelo menos um registro provisório no “conselho de medicina” do país ou do estado. Neste sim, o médico irá atender, prescrever, dar plantão e operar, voltando proficiente em novas técnicas ou em áreas onde não há treinamento específico ou com volume adequado no Brasil, como por exemplo, a cirurgia robótica.Existem os fellowships onde são exigidos  um ano de research  mais um ou dois de clinical (geralmente no Canadá ou Estados Unidos).

De tal forma, não é raro encontrarmos  repetida e indiscrimidamente sites de colegas que fizeram estágios curtos ou observacionais e se auto-intitulam que foram “fellows” de uma, duas ou até três instituições internacionais.

A cirurgia robótica em si é outro exemplo. Existe muita diferença entre “certificação”  e prática como cirurgião de console. No Brasil ainda não contamos com um programa de treinamento consolidado onde o médico pode operar exaustivamente com a tecnologia. Os bons treinamentos que existem atualmente dão uma boa visão e boa prática como cirurgião auxiliar. Este já é outro ponto que o paciente deve prestar atenção.

Parece que essa prática é sistêmica. É preciso estar atento para não se deixar enganar e para não sermos coniventes com tais atitudes. Nós devemos ser a mudança que queremos ver no mundo.

(*) Dr.  Flávio V Ordones é Urologista e Mestre pela UNESP (Universidade Estadual Paulista) Médico do Corpo Clínico dos Hospitais Bp, 9 de Julho e Sírio Libanês. Membro das Sociedades Americanas e Européia de Urologia, foi Clinical Fellow em Urologia e Cirurgia Robótica no Royal Adelaide Hospital de fevereiro de 2016 a junho  2017.

 

 

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